quarta-feira, 28 de julho de 2021
terça-feira, 27 de julho de 2021
Poeta de boas contas
Poetas de boas Contas
Uma pessoa de boas contas paga o que tem a pagar,
recebe o que tem a receber,
de niquéis de prata a notas de roda-pé,
está em harmonia com a rosa dos mundos.
O Celestino meteu-se no mar encapelado a espumar ameaças
depois de um almoço de bacalhau à lagareiro,
e nunca mais voltou a falar,
foi levado e ninguém o pôde resgatar,
um salva-vidas embaralhou-se numa onda negra
do tamanho de uma casa, ficou todo virado,
a ré a fazer de proa,
os nadadores-salvadores aguentaram-se na borrasca,
tinham-lhes insuflado laranjas nos coletes.
Para mim, e para muita gente, ali na praia da Codixeira,
foi uma forma de suicídio esta provocação do mar cinzento.
Claro que para a família, a mãe, as irmãs,
e para uns amigos literatos de vizinhança,
foi apenas uma desgraça que lhe aconteceu,
(como se a palavra desgraça abarcasse todo o mundo e toda a água)
o destino governado pelas forças da tragédia,
augúrios de mar que tanto pescador tinha levado
em botes de madeira rota.
A minha revolta é saber que o Celestino morreu,
sendo um poeta de boas contas.
Não me venham com aqueles lugares comuns,
que era um tipo bondoso, amigo do seu amigo,
capaz de dar a t-shirt a um poeta pobre,
excelente camarada da palavra,
cumpridor de horários e trabalhador esmerado
a operar com instrumentos de serralharia,
a afinar portas, janelas e marquises,
a calibrar ditirambos para um coro de gaivotas.
O Celestino era um poeta de boas contas,
a mim só me ficou a dever um almoço
quando apostou que o Chico ia ganhar
o prémio literário da Junta de Freguesia de Alvarães.
Claro que ele perdeu e eu fiquei a ver navios no horizonte
por uns binóculos rachados, na praia da Codixeira.
(ah, é verdade ficou de me pagar uma antologia de poesia grega
que lhe comprei num alfarrabista da Meadela).
Sendo ele de boas contas deu-lhe para se meter no oceano
e ali encontrar a morte, talvez para mostrar que era valente,
uma coisa que não interessa a ninguém,
(qualquer valente se borra todo de medo)
o importante é ser uma pessoa de boas contas.
Um dia estávamos numa tertúlia literária,
eu de polo da benetton,
ele com as calças arregaçadas e umas sandálias nojentas,
e uma poeta, Isa, disse-lhe que a escrita, a poiesis,
era a sua sobrevivência e não se importava
que não lhe pagassem a escrita
mesmo quando poetava a gata com cio.
Eu, que escrevo exclusivamente por dinheiro,
fiquei contente,
«menos uma boca a sustentar», pensei,
mas o Celestino ficou abespinhado e disse-lhe
que era poeta de boas contas,
que pagava não só o prazer do texto,
mas também as intertextualidades e o arrojo das metáforas,
úteis artifícios que a poeta Isa desconhecia.
Ainda hoje me interrogo sobre o afogamento do Celestino
naquele mar zangado, com Jesus a ralhar na trovoada,
algas negras e decassílabos a entrarem-me pelas narinas,
metáforas salgadas a iludirem a borrasca.
Penso muitas vezes que ele não conseguia conciliar
a profissão de serralheiro com a exigência da literatura,
o que ele queria era que a poesia lhe trouxesse
tranquilidade, revelações, comunhão com o divino,
e se articulasse com as exigências do alumínio lacado.
Sempre achei que aquela poeta, Isa,
– que vim a saber se chamava Isa Bell –
não era poeta de boas contas,
tinha ficado a dever um dicionário a um aedo de bairro
e não pagara a inscrição no festival literário de Carreço.
Quando uma noite, por volta das duas da manhã,
terminámos a tertúlia propriamente dita
– o que era complicado para o Celestino, que ia trabalhar
para a oficina no dia seguinte às oito horas –
continuámos ainda a falar da poesia
que íamos lendo em edições alternativas.
Como agora estou desempregado
e inscrito no centro de emprego
à espera de dizer não a qualquer merda para que me chamem,
(a não ser que seja numa oficina de imagética)
não me interessam nada os poetas que aparentam santidade,
interessam-me os poetas de boas contas.
Segundo ponto: o Celestino insinuou
que eu estava a fazer pé-de-alferes à poeta Isa,
que lhe mandava troqueus e espondeus
como quem não quer a rima,
quer dizer, ele não me disse nada directamente,
mas percebi que reparou
que eu fazia estranhas associações conceptuais,
que invocava a fragilidade dos versos
e desenhava angústias e espantos com palavras fora de uso
só porque me deixara seduzir por uma rosa tatuada
no tornozelo de Isa Bell.
Não, eu nunca me aproximaria da poeta Isa sem saber
se ela era pessoa de boas contas,
a qualidade máxima que uma pessoa-poeta pode ter.
Claro, com a morte do Celestino
houve uma série de projectos literários
que foram pela água do mar abaixo,
(um colóquio sobre o vidro duplo da lírica, por exemplo)
mas também, segundo disse o seu patrão
em blá-bla à saída do velório, *
ficaram uma série de entregas adiadas,
inclusivamente umas janelas de sintagmas basculantes em PVC
a cargo do Celestino, poeta honesto e trabalhador
e uma pessoa de boas contas. .
*O corpo aparecera uma semana depois arrastado por uma musa.
segunda-feira, 26 de julho de 2021
Lançamento do Pó
Registo de gravação das palavras de Zélio Zulmiro (ZZ)
no lançamento do livro de poesia «Pó», de Alírio Areosa (AA)
Jorge, anda ver o meu país de trapaceiros
AA in PÓ
Em primeiro lugar boa tarde a todos e a todas.
Não digo a todas e a todos para que não me acusem de machista
ao privilegiar, na precedência, o sexo feminino,
num gesto galante, próprio de um dom guam.
Sinto-me muito honrado pelo convite
que o Alírio Areosa me fez
para apresentar o seu livro «Pó»
editado pela Farol da Boa Nova,
aqui na pessoa do editor Valério Vale,
V V, como é conhecido.
O livro lembra-me a minha infância,
quando esgurganhava solidós
na minha aldeia natal, e até páscoa,
os astrolínguios sobrevoavam o esterco
pendente das gáveas menores,
o cão da minha tia urinava os canteiros em flor
e a roupa a corar de vergonha.
A minha tia era condescendente,
trazia-me bolachas francesas todas as manhãs
para estimular os meus genes oblativos.
Mais tarde verifiquei que os poetas
que se alambazam com bolacha francesa só escrevem sobre
a batalha de Waterloo e alguns ficam com as baionetas tortas
de tanto matraquear teclados.
Hoje pouca gente lê,
a maior parte das pessoas escreve,
e ainda bem, porque ler o que se escreve para aí
é de facto um desperdício de lentes.
Uma honrosa excepção para a poesia de Alírio Areosa,
e por uma razão: ainda há dias conversava
com um poeta meu amigo, Manuel Manhoso,
o MM, como é conhecido,
numa casa de pasto, ali para os lados
da calçada do ombro,
por acaso ele andava com uma dor ciática
e perguntou-me se eu conhecia
um osteoempata de confiança.
Disse-lhe que nem sempre confiava
nos métodos da osteoempatia,
e que o melhor era ele pensar
em deixar a coca e ficar-se pela cola
e consultar um médico, mesmo sem acordo de ninguém.
Isto lembrou-me os poemas que Alírio Areosa
nos traz aqui hoje com o seu livro «Pó».
Como ia dizendo, antes de falar
do livro impresso, tal como este «Pó»,
lembro-me sempre de Gutenberg, o inventor da Impresa
em parceria com Pinto Balsemão.
«Pó».
É obra.
Sobre este livro de AA queria ainda contar-vos,
que ontem, estando eu à procura de táxi,
deparei com uma senhora idosa,
talvez de noventa e nove anos,
que me pediu para lhe ceder a corrida,
porque tinha o marido doente com
uma fibromialgia galopante
(desculpem-me o aparte, mas o meu tio-bisavô materno,
que vivia no Gerês, falava ao meu pai
de um garrano que galopava, galopava,
até lhe sair a crina pelo cu, desculpem a expressão).
Fiquei a pensar no sofrimento do marido da senhora
e dei-lhe prioridade.
Assim que se viu dentro do táxi,
olhou para mim a rir-se, alarve a mente,
e esticou o dedo médio à janela.
Gandacíssima cabra,
desculpem-me a expressão.
Este livro de versos desperta
o gosto de retratar o quotidiano,
faz-me lembrar um dia
em que dei de caras com o meu amigo, Duarte Delo,
fotógrafo, conhecido por DD,
ia a descer uma calçada íngreme e encontramo-nos,
amei o caminho, olhei-o de frente,
ele deu-me um demorado abraço sem mais explicações,
e segredou-me com aquela cumplicidade que sempre nos unia:
«vou retratar o quotidiano, todos os dias».
Claro que uma situação destas mergulha-me
no sentido antropofórmico da vida e da poesia.
Hoje em dia só vale a pena escrever poesia
se valer a pena escrever poesia.
Ora, todos devem ser poetas,
embora nem todos consigam
atingir o pata-mar que Areosa atingiu,
acumulando os mais diversos encómios,
desculpem-me a expressão.
Sobre este livro de poemas, basicamente, acho que é
magnífico,
elevou-se a um alto pata-mar.
Ora isto lembra-me o primeiro dia
em que fui à praia e Guiomar,
Guiomar pela primeira vez, a minha amada,
tinha eu uns vinte e dois anos,
após sair da aldeia natal, e ano novo,
e entrar para a Faculdade de Letras de Alcabideche,
mesmo ali acima da Torre do Tombo,
onde caí várias vezes, justificando o nome da torre.
Poucos anos depois, conheci o autor de
«Pó»,
quando ele me pediu uma pilha
para acender um cigarro electrónico.
Lembras-te Areosa?
Eras um fumador inexperiente, mas com victo,
e disseste que ainda um dia, quando fosses poeta,
me pedirias para te apresentar um livro no bolso.
Pronto, aqui estou eu ao dispor,
«Teresa de Jesus, uma sua criada»,
desculpem-me a expressão.
Depois de tudo o que acabo de dizer sobre o
«Pó»,
pouco mais há a acrescentar,
leiam os cantos onde o «Pó», se a loja...
Apenas uma palavra que deixo aos leitores para reflexão:
magnífico,
como diria o José Augusto em França.
Obrigado, Alírio Areosa
e continua que Hades ir longe,
e sais do mundo dos mortos.
Poeta alegadamente assassinado
Poeta alegadamente assassinado
O editor furou a zona delimitada
com uma fita vermelha e branca às riscas
e logo foi travado pela polícia do costume.
Queria aproximar-se do corpo para observá-lo em pormenor,
procurar vestígios, blocos de notas, fotografias, rascunhos,
mas a polícia judiciária não lhe dera alvará e carta branca
para investigar o crime,
estava farta de insucessos editoriais,
todavia achava que um editor podia ser um Sherlock Holmes.
O poeta jazia no chão molhado,
numa cama de folhas,
só com um sapato calçado,
cheio de flores e frutos mortos em redor,
junto ao rio do esquecimento.
Tinha sido alegadamente assasinado
durante a escrita de um poema ao ar livre,
a julgar pelas palavras inacabadas dispostas
numa folha de papel presa à mão esquerda esfacelada:
amarg-, violet-, fom-, árvo- aleg--, silê--.
Não se sabia o motivo do crime
quem poderia ter assassinado um poeta a iniciar
uma carreira alegadamente promissora.
Um foto-jornalista pegou na máquina fotográfica,
com um flash enorme a sair da câmara,
como nos filmes americanos
à saída do tribunal nos anos cinquenta,
disparou umas chapas de zinco
para ficar com eventuais provas a rever,
- um cadáver sem acento, uma preposição deslocada,
uma oração mal dividida, o verbo haver sem agá -
e iluminou-se a humidade do bosque no disparo.
Mataram um poeta e nem uma lágrima de um leitor
se misturou com a crueldade do cenário,
nem a ironia de um breve obituário,
como se antes de ser poeta já fosse esquecido como poeta,
mesmo sem o primeiro livro publicado.
No entanto, um diseur preparava-se para ler
alguns poemas junto ao cadáver em investigação
para inspirar o editor de cachimbo Maigret style
(e não Sherlock Holmes como a polícia
insinuava ignorantemente para o provocar)
mas desistiu, faltou-lhe a voz e o élan.
O poeta estava em vias de publicar o seu primeiro livro,
o editor sentia a frustração de perder um lucro promissor,
e uma obra póstuma não estaria nos seus planos,
a família do poeta, em profundas desavenças de heranças
devido à titularidade dos direitos de autor,
não autorizava a publicação de uma série de quadras
com significativas deficiências métricas e com rima pobre,
cantar com amar, café com capilé.
O poeta tinha uma enorme vocação
para quadras aleixianas,
mas era um calão na contagem das sílabas
não lhe passava pela cabeça
que acrescentando um artigo definido,
ou tirando uma adjectivo,
podia fazer de um poema cantante
uma letra para um enfado.
Se fosse demonstrado que o assassinato do poeta
se devia a despiques editoriais,
havia a possibilidade de a família receber
choruda indeminização das editoras cotadas em bolsa,
nomeadamente de uma que alegadamente
teria contratado um assassino literário
para executar o poeta com uma paulada no crâneo,
mesmo ali junto a um aqulino ribeiro
ao lado de ramos de rosa.
O corpo do poeta foi levado para a morgue do artista,
e aí analizado em sintaxe horizontal
sobre uma mesa de mármore italiano,
circunscreveram-se indícios e pistas para a investigação
da alegada morte do poeta.
O poeta morto vestia um fato de cheviote
com nódoas de vinho tinto numa das bandas do casaco,
camisa branca imunda, sapatilhas ardidas,
apenas lhe conseguiram ver as unhas sujas de tinta pelikan
e do cérebro esmigalhado parecia sair uma estrofe
com a métrica também danificada,
apanágio do poeta.
O editor lembrou ao médico legista
a sua expressão humorística frequente
«que se lixe a rima e o ritmo, eu tenho génio nos sovacos».
E ria-se com o riso com que o poeta riria de si próprio.
Não se pode ainda dizer quem matou o poeta
para não matar o mistério ao leitor deste relato,
mas que tinha sido o seu namorado,
disso havia forte suspeita nas redes anti-sociais,
que tomavam as partes pelo tordo.
Vários poetas se pronunciaram sobre o crime,
o desabafo mais corrente era
«menos uma boca a sustentar»,
menos concorrência neste mundo literário em crise
devido ao excesso de versos,
daí uma alegria envergonhada que os poetas reprimiam
entre os paraísos artificiais que tomavam nos lançamentos
dos pares e dos ímpares em bares de alterne literário.
Reflectindo sobre esta realidade o editor-inspector
chegou a pôr a hipótese de o poeta ter sido assassinado
por outro, ou outros poetas,
a fim de não saturar o mercado
de mais poemas imprevistos,
tinham sido alegadamente também assassinados
alguns romancistas que infestavam o mercado da ribeira
e cheiravam mal da boca devido à ingestão de bibalves contaminados.
Nunca se chegou a descobrir a causa do assassinato deste poeta
nem o autor ou autores do hediondo poeticídio,
como se matar um vate fosse vingança de gang,
tudo o que foi dito são apenas especulações sem provas a corrigir.
O editor com alma de detective
cruzou-se com a Judite,
de mãos nos bolsos da gabardine,
lançou-lhe uma baforada de fumo do cachimbo Maigret style
perante a tosse e o ar inquisidor da supra citada inspectora Judite,
apenas acrescentou com veemência editorial
que detectava talentos,
que ela, Judite, o Sherlock Holmes, ou fosse quem fosse,
tinham de descobrir o alegado assassino
e as causas da morte do artista.
Um outro Maigret presente retorquiu com a hipótese
de roubo de versos para plágio,
«mas isto é um supônhamos, que eu raramente leio poesia,
a não ser em férias».
Termina-se este relato com sérias dúvidas,
alguém fez um depoimento em que jurava sem margem de dúvida
que o poeta tinha sido visto a tanger lira num triclínio
na véspera do horrendo poeticídio.
Quem o terá querido iluminar tão rapidamente?
A hipótese da autoria do alegado assassino ser o seu namorado
foi completamente afastada,
ficou apenas sujeita à efemeridade das redes anti-sociais
onde também pululavam poetas em excesso.
Ser poeta acarreta sérios riscos,
não apenas em papel, mas nos automóveis dos poetas,
por vezes riscados por raiva do seu génio incontido,
ser poeta é ser menor,
quando por inveja dos versos excessivos
uma paulada lhe cai sobre a cabeça.

