segunda-feira, 26 de julho de 2021

Lançamento do Pó

 



Registo de gravação das palavras de Zélio Zulmiro (ZZ)

no lançamento do livro de poesia «Pó», de Alírio Areosa (AA)



Jorge, anda ver o meu país de trapaceiros

AA in





Em primeiro lugar boa tarde a todos e a todas.

Não digo a todas e a todos para que não me acusem de machista

ao privilegiar, na precedência, o sexo feminino,

num gesto galante, próprio de um dom guam.



Sinto-me muito honrado pelo convite

que o Alírio Areosa me fez

para apresentar o seu livro «Pó»

editado pela Farol da Boa Nova,

aqui na pessoa do editor Valério Vale,

V V, como é conhecido.

O livro lembra-me a minha infância,

quando esgurganhava solidós

na minha aldeia natal, e até páscoa,

os astrolínguios sobrevoavam o esterco

pendente das gáveas menores,

o cão da minha tia urinava os canteiros em flor

e a roupa a corar de vergonha.

A minha tia era condescendente,

trazia-me bolachas francesas todas as manhãs

para estimular os meus genes oblativos.

Mais tarde verifiquei que os poetas

que se alambazam com bolacha francesa só escrevem sobre

a batalha de Waterloo e alguns ficam com as baionetas tortas

de tanto matraquear teclados.



Hoje pouca gente lê,

a maior parte das pessoas escreve,

e ainda bem, porque ler o que se escreve para aí

é de facto um desperdício de lentes.

Uma honrosa excepção para a poesia de Alírio Areosa,

e por uma razão: ainda há dias conversava

com um poeta meu amigo, Manuel Manhoso,

o MM, como é conhecido,

numa casa de pasto, ali para os lados

da calçada do ombro,

por acaso ele andava com uma dor ciática

e perguntou-me se eu conhecia

um osteoempata de confiança.

Disse-lhe que nem sempre confiava

nos métodos da osteoempatia,

e que o melhor era ele pensar

em deixar a coca e ficar-se pela cola

e consultar um médico, mesmo sem acordo de ninguém.



Isto lembrou-me os poemas que Alírio Areosa

nos traz aqui hoje com o seu livro «Pó».

Como ia dizendo, antes de falar

do livro impresso, tal como este «Pó»,

lembro-me sempre de Gutenberg, o inventor da Impresa

em parceria com Pinto Balsemão.


«Pó».

É obra.

Sobre este livro de AA queria ainda contar-vos,

que ontem, estando eu à procura de táxi,

deparei com uma senhora idosa,

talvez de noventa e nove anos,

que me pediu para lhe ceder a corrida,

porque tinha o marido doente com

uma fibromialgia galopante

(desculpem-me o aparte, mas o meu tio-bisavô materno,

que vivia no Gerês, falava ao meu pai

de um garrano que galopava, galopava,

até lhe sair a crina pelo cu, desculpem a expressão).

Fiquei a pensar no sofrimento do marido da senhora

e dei-lhe prioridade.

Assim que se viu dentro do táxi,

olhou para mim a rir-se, alarve a mente,

e esticou o dedo médio à janela.

Gandacíssima cabra,

desculpem-me a expressão.



Este livro de versos desperta

o gosto de retratar o quotidiano,

faz-me lembrar um dia

em que dei de caras com o meu amigo, Duarte Delo,

fotógrafo, conhecido por DD,

ia a descer uma calçada íngreme e encontramo-nos,

amei o caminho, olhei-o de frente,

ele deu-me um demorado abraço sem mais explicações,

e segredou-me com aquela cumplicidade que sempre nos unia:

«vou retratar o quotidiano, todos os dias».

Claro que uma situação destas mergulha-me

no sentido antropofórmico da vida e da poesia.



Hoje em dia só vale a pena escrever poesia

se valer a pena escrever poesia.

Ora, todos devem ser poetas,

embora nem todos consigam

atingir o pata-mar que Areosa atingiu,

acumulando os mais diversos encómios,

desculpem-me a expressão.



Sobre este livro de poemas, basicamente, acho que é

magnífico,

elevou-se a um alto pata-mar.

Ora isto lembra-me o primeiro dia

em que fui à praia e Guiomar,

Guiomar pela primeira vez, a minha amada,

tinha eu uns vinte e dois anos,

após sair da aldeia natal, e ano novo,

e entrar para a Faculdade de Letras de Alcabideche,

mesmo ali acima da Torre do Tombo,

onde caí várias vezes, justificando o nome da torre.

Poucos anos depois, conheci o autor de

«Pó»,

quando ele me pediu uma pilha

para acender um cigarro electrónico.

Lembras-te Areosa?

Eras um fumador inexperiente, mas com victo,

e disseste que ainda um dia, quando fosses poeta,

me pedirias para te apresentar um livro no bolso.

Pronto, aqui estou eu ao dispor,

«Teresa de Jesus, uma sua criada»,

desculpem-me a expressão.

Depois de tudo o que acabo de dizer sobre o

«Pó»,

pouco mais há a acrescentar,

leiam os cantos onde o «Pó», se a loja...



Apenas uma palavra que deixo aos leitores para reflexão:

magnífico,

como diria o José Augusto em França.

Obrigado, Alírio Areosa

e continua que Hades ir longe,

e sais do mundo dos mortos.






Sem comentários:

Enviar um comentário

obras de Graciliano Barroca