Registo de gravação das palavras de Zélio Zulmiro (ZZ)
no lançamento do livro de poesia «Pó», de Alírio Areosa (AA)
Jorge, anda ver o meu país de trapaceiros
AA in PÓ
Em primeiro lugar boa tarde a todos e a todas.
Não digo a todas e a todos para que não me acusem de machista
ao privilegiar, na precedência, o sexo feminino,
num gesto galante, próprio de um dom guam.
Sinto-me muito honrado pelo convite
que o Alírio Areosa me fez
para apresentar o seu livro «Pó»
editado pela Farol da Boa Nova,
aqui na pessoa do editor Valério Vale,
V V, como é conhecido.
O livro lembra-me a minha infância,
quando esgurganhava solidós
na minha aldeia natal, e até páscoa,
os astrolínguios sobrevoavam o esterco
pendente das gáveas menores,
o cão da minha tia urinava os canteiros em flor
e a roupa a corar de vergonha.
A minha tia era condescendente,
trazia-me bolachas francesas todas as manhãs
para estimular os meus genes oblativos.
Mais tarde verifiquei que os poetas
que se alambazam com bolacha francesa só escrevem sobre
a batalha de Waterloo e alguns ficam com as baionetas tortas
de tanto matraquear teclados.
Hoje pouca gente lê,
a maior parte das pessoas escreve,
e ainda bem, porque ler o que se escreve para aí
é de facto um desperdício de lentes.
Uma honrosa excepção para a poesia de Alírio Areosa,
e por uma razão: ainda há dias conversava
com um poeta meu amigo, Manuel Manhoso,
o MM, como é conhecido,
numa casa de pasto, ali para os lados
da calçada do ombro,
por acaso ele andava com uma dor ciática
e perguntou-me se eu conhecia
um osteoempata de confiança.
Disse-lhe que nem sempre confiava
nos métodos da osteoempatia,
e que o melhor era ele pensar
em deixar a coca e ficar-se pela cola
e consultar um médico, mesmo sem acordo de ninguém.
Isto lembrou-me os poemas que Alírio Areosa
nos traz aqui hoje com o seu livro «Pó».
Como ia dizendo, antes de falar
do livro impresso, tal como este «Pó»,
lembro-me sempre de Gutenberg, o inventor da Impresa
em parceria com Pinto Balsemão.
«Pó».
É obra.
Sobre este livro de AA queria ainda contar-vos,
que ontem, estando eu à procura de táxi,
deparei com uma senhora idosa,
talvez de noventa e nove anos,
que me pediu para lhe ceder a corrida,
porque tinha o marido doente com
uma fibromialgia galopante
(desculpem-me o aparte, mas o meu tio-bisavô materno,
que vivia no Gerês, falava ao meu pai
de um garrano que galopava, galopava,
até lhe sair a crina pelo cu, desculpem a expressão).
Fiquei a pensar no sofrimento do marido da senhora
e dei-lhe prioridade.
Assim que se viu dentro do táxi,
olhou para mim a rir-se, alarve a mente,
e esticou o dedo médio à janela.
Gandacíssima cabra,
desculpem-me a expressão.
Este livro de versos desperta
o gosto de retratar o quotidiano,
faz-me lembrar um dia
em que dei de caras com o meu amigo, Duarte Delo,
fotógrafo, conhecido por DD,
ia a descer uma calçada íngreme e encontramo-nos,
amei o caminho, olhei-o de frente,
ele deu-me um demorado abraço sem mais explicações,
e segredou-me com aquela cumplicidade que sempre nos unia:
«vou retratar o quotidiano, todos os dias».
Claro que uma situação destas mergulha-me
no sentido antropofórmico da vida e da poesia.
Hoje em dia só vale a pena escrever poesia
se valer a pena escrever poesia.
Ora, todos devem ser poetas,
embora nem todos consigam
atingir o pata-mar que Areosa atingiu,
acumulando os mais diversos encómios,
desculpem-me a expressão.
Sobre este livro de poemas, basicamente, acho que é
magnífico,
elevou-se a um alto pata-mar.
Ora isto lembra-me o primeiro dia
em que fui à praia e Guiomar,
Guiomar pela primeira vez, a minha amada,
tinha eu uns vinte e dois anos,
após sair da aldeia natal, e ano novo,
e entrar para a Faculdade de Letras de Alcabideche,
mesmo ali acima da Torre do Tombo,
onde caí várias vezes, justificando o nome da torre.
Poucos anos depois, conheci o autor de
«Pó»,
quando ele me pediu uma pilha
para acender um cigarro electrónico.
Lembras-te Areosa?
Eras um fumador inexperiente, mas com victo,
e disseste que ainda um dia, quando fosses poeta,
me pedirias para te apresentar um livro no bolso.
Pronto, aqui estou eu ao dispor,
«Teresa de Jesus, uma sua criada»,
desculpem-me a expressão.
Depois de tudo o que acabo de dizer sobre o
«Pó»,
pouco mais há a acrescentar,
leiam os cantos onde o «Pó», se a loja...
Apenas uma palavra que deixo aos leitores para reflexão:
magnífico,
como diria o José Augusto em França.
Obrigado, Alírio Areosa
e continua que Hades ir longe,
e sais do mundo dos mortos.
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