Poetas de boas Contas
Uma pessoa de boas contas paga o que tem a pagar,
recebe o que tem a receber,
de niquéis de prata a notas de roda-pé,
está em harmonia com a rosa dos mundos.
O Celestino meteu-se no mar encapelado a espumar ameaças
depois de um almoço de bacalhau à lagareiro,
e nunca mais voltou a falar,
foi levado e ninguém o pôde resgatar,
um salva-vidas embaralhou-se numa onda negra
do tamanho de uma casa, ficou todo virado,
a ré a fazer de proa,
os nadadores-salvadores aguentaram-se na borrasca,
tinham-lhes insuflado laranjas nos coletes.
Para mim, e para muita gente, ali na praia da Codixeira,
foi uma forma de suicídio esta provocação do mar cinzento.
Claro que para a família, a mãe, as irmãs,
e para uns amigos literatos de vizinhança,
foi apenas uma desgraça que lhe aconteceu,
(como se a palavra desgraça abarcasse todo o mundo e toda a água)
o destino governado pelas forças da tragédia,
augúrios de mar que tanto pescador tinha levado
em botes de madeira rota.
A minha revolta é saber que o Celestino morreu,
sendo um poeta de boas contas.
Não me venham com aqueles lugares comuns,
que era um tipo bondoso, amigo do seu amigo,
capaz de dar a t-shirt a um poeta pobre,
excelente camarada da palavra,
cumpridor de horários e trabalhador esmerado
a operar com instrumentos de serralharia,
a afinar portas, janelas e marquises,
a calibrar ditirambos para um coro de gaivotas.
O Celestino era um poeta de boas contas,
a mim só me ficou a dever um almoço
quando apostou que o Chico ia ganhar
o prémio literário da Junta de Freguesia de Alvarães.
Claro que ele perdeu e eu fiquei a ver navios no horizonte
por uns binóculos rachados, na praia da Codixeira.
(ah, é verdade ficou de me pagar uma antologia de poesia grega
que lhe comprei num alfarrabista da Meadela).
Sendo ele de boas contas deu-lhe para se meter no oceano
e ali encontrar a morte, talvez para mostrar que era valente,
uma coisa que não interessa a ninguém,
(qualquer valente se borra todo de medo)
o importante é ser uma pessoa de boas contas.
Um dia estávamos numa tertúlia literária,
eu de polo da benetton,
ele com as calças arregaçadas e umas sandálias nojentas,
e uma poeta, Isa, disse-lhe que a escrita, a poiesis,
era a sua sobrevivência e não se importava
que não lhe pagassem a escrita
mesmo quando poetava a gata com cio.
Eu, que escrevo exclusivamente por dinheiro,
fiquei contente,
«menos uma boca a sustentar», pensei,
mas o Celestino ficou abespinhado e disse-lhe
que era poeta de boas contas,
que pagava não só o prazer do texto,
mas também as intertextualidades e o arrojo das metáforas,
úteis artifícios que a poeta Isa desconhecia.
Ainda hoje me interrogo sobre o afogamento do Celestino
naquele mar zangado, com Jesus a ralhar na trovoada,
algas negras e decassílabos a entrarem-me pelas narinas,
metáforas salgadas a iludirem a borrasca.
Penso muitas vezes que ele não conseguia conciliar
a profissão de serralheiro com a exigência da literatura,
o que ele queria era que a poesia lhe trouxesse
tranquilidade, revelações, comunhão com o divino,
e se articulasse com as exigências do alumínio lacado.
Sempre achei que aquela poeta, Isa,
– que vim a saber se chamava Isa Bell –
não era poeta de boas contas,
tinha ficado a dever um dicionário a um aedo de bairro
e não pagara a inscrição no festival literário de Carreço.
Quando uma noite, por volta das duas da manhã,
terminámos a tertúlia propriamente dita
– o que era complicado para o Celestino, que ia trabalhar
para a oficina no dia seguinte às oito horas –
continuámos ainda a falar da poesia
que íamos lendo em edições alternativas.
Como agora estou desempregado
e inscrito no centro de emprego
à espera de dizer não a qualquer merda para que me chamem,
(a não ser que seja numa oficina de imagética)
não me interessam nada os poetas que aparentam santidade,
interessam-me os poetas de boas contas.
Segundo ponto: o Celestino insinuou
que eu estava a fazer pé-de-alferes à poeta Isa,
que lhe mandava troqueus e espondeus
como quem não quer a rima,
quer dizer, ele não me disse nada directamente,
mas percebi que reparou
que eu fazia estranhas associações conceptuais,
que invocava a fragilidade dos versos
e desenhava angústias e espantos com palavras fora de uso
só porque me deixara seduzir por uma rosa tatuada
no tornozelo de Isa Bell.
Não, eu nunca me aproximaria da poeta Isa sem saber
se ela era pessoa de boas contas,
a qualidade máxima que uma pessoa-poeta pode ter.
Claro, com a morte do Celestino
houve uma série de projectos literários
que foram pela água do mar abaixo,
(um colóquio sobre o vidro duplo da lírica, por exemplo)
mas também, segundo disse o seu patrão
em blá-bla à saída do velório, *
ficaram uma série de entregas adiadas,
inclusivamente umas janelas de sintagmas basculantes em PVC
a cargo do Celestino, poeta honesto e trabalhador
e uma pessoa de boas contas. .
*O corpo aparecera uma semana depois arrastado por uma musa.

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