segunda-feira, 26 de julho de 2021

Poeta alegadamente assassinado




 

Poeta alegadamente assassinado


O editor furou a zona delimitada

com uma fita vermelha e branca às riscas

e logo foi travado pela polícia do costume.

Queria aproximar-se do corpo para observá-lo em pormenor,

procurar vestígios, blocos de notas, fotografias, rascunhos,

mas a polícia judiciária não lhe dera alvará e carta branca

para investigar o crime,

estava farta de insucessos editoriais,

todavia achava que um editor podia ser um Sherlock Holmes.


O poeta jazia no chão molhado,

numa cama de folhas,

só com um sapato calçado,

cheio de flores e frutos mortos em redor,

junto ao rio do esquecimento.

Tinha sido alegadamente assasinado

durante a escrita de um poema ao ar livre,

a julgar pelas palavras inacabadas dispostas

numa folha de papel presa à mão esquerda esfacelada:

amarg-, violet-, fom-, árvo- aleg--, silê--.


Não se sabia o motivo do crime

quem poderia ter assassinado um poeta a iniciar

uma carreira alegadamente promissora.


Um foto-jornalista pegou na máquina fotográfica,

com um flash enorme a sair da câmara,

como nos filmes americanos

à saída do tribunal nos anos cinquenta,

disparou umas chapas de zinco

para ficar com eventuais provas a rever,

- um cadáver sem acento, uma preposição deslocada,

uma oração mal dividida, o verbo haver sem agá -

e iluminou-se a humidade do bosque no disparo.


Mataram um poeta e nem uma lágrima de um leitor

se misturou com a crueldade do cenário,

nem a ironia de um breve obituário,

como se antes de ser poeta já fosse esquecido como poeta,

mesmo sem o primeiro livro publicado.


No entanto, um diseur preparava-se para ler

alguns poemas junto ao cadáver em investigação

para inspirar o editor de cachimbo Maigret style

(e não Sherlock Holmes como a polícia

insinuava ignorantemente para o provocar)

mas desistiu, faltou-lhe a voz e o élan.


O poeta estava em vias de publicar o seu primeiro livro,

o editor sentia a frustração de perder um lucro promissor,

e uma obra póstuma não estaria nos seus planos,

a família do poeta, em profundas desavenças de heranças

devido à titularidade dos direitos de autor,

não autorizava a publicação de uma série de quadras

com significativas deficiências métricas e com rima pobre,

cantar com amar, café com capilé.

O poeta tinha uma enorme vocação

para quadras aleixianas,

mas era um calão na contagem das sílabas

não lhe passava pela cabeça

que acrescentando um artigo definido,

ou tirando uma adjectivo,

podia fazer de um poema cantante

uma letra para um enfado.


Se fosse demonstrado que o assassinato do poeta

se devia a despiques editoriais,

havia a possibilidade de a família receber

choruda indeminização das editoras cotadas em bolsa,

nomeadamente de uma que alegadamente

teria contratado um assassino literário

para executar o poeta com uma paulada no crâneo,

mesmo ali junto a um aqulino ribeiro

ao lado de ramos de rosa.


O corpo do poeta foi levado para a morgue do artista,

e aí analizado em sintaxe horizontal

sobre uma mesa de mármore italiano,

circunscreveram-se indícios e pistas para a investigação

da alegada morte do poeta.

O poeta morto vestia um fato de cheviote

com nódoas de vinho tinto numa das bandas do casaco,

camisa branca imunda, sapatilhas ardidas,

apenas lhe conseguiram ver as unhas sujas de tinta pelikan

e do cérebro esmigalhado parecia sair uma estrofe

com a métrica também danificada,

apanágio do poeta.


O editor lembrou ao médico legista

a sua expressão humorística frequente

«que se lixe a rima e o ritmo, eu tenho génio nos sovacos».

E ria-se com o riso com que o poeta riria de si próprio.


Não se pode ainda dizer quem matou o poeta

para não matar o mistério ao leitor deste relato,

mas que tinha sido o seu namorado,

disso havia forte suspeita nas redes anti-sociais,

que tomavam as partes pelo tordo.


Vários poetas se pronunciaram sobre o crime,

o desabafo mais corrente era

«menos uma boca a sustentar»,

menos concorrência neste mundo literário em crise

devido ao excesso de versos,

daí uma alegria envergonhada que os poetas reprimiam

entre os paraísos artificiais que tomavam nos lançamentos

dos pares e dos ímpares em bares de alterne literário.



Reflectindo sobre esta realidade o editor-inspector

chegou a pôr a hipótese de o poeta ter sido assassinado

por outro, ou outros poetas,

a fim de não saturar o mercado

de mais poemas imprevistos,

tinham sido alegadamente também assassinados

alguns romancistas que infestavam o mercado da ribeira

e cheiravam mal da boca devido à ingestão de bibalves contaminados.


Nunca se chegou a descobrir a causa do assassinato deste poeta

nem o autor ou autores do hediondo poeticídio,

como se matar um vate fosse vingança de gang,

tudo o que foi dito são apenas especulações sem provas a corrigir.


O editor com alma de detective

cruzou-se com a Judite,

de mãos nos bolsos da gabardine,

lançou-lhe uma baforada de fumo do cachimbo Maigret style

perante a tosse e o ar inquisidor da supra citada inspectora Judite,

apenas acrescentou com veemência editorial

que detectava talentos,

que ela, Judite, o Sherlock Holmes, ou fosse quem fosse,

tinham de descobrir o alegado assassino

e as causas da morte do artista.

Um outro Maigret presente retorquiu com a hipótese

de roubo de versos para plágio,

«mas isto é um supônhamos, que eu raramente leio poesia,

a não ser em férias».


Termina-se este relato com sérias dúvidas,

alguém fez um depoimento em que jurava sem margem de dúvida

que o poeta tinha sido visto a tanger lira num triclínio

na véspera do horrendo poeticídio.

Quem o terá querido iluminar tão rapidamente?

A hipótese da autoria do alegado assassino ser o seu namorado

foi completamente afastada,

ficou apenas sujeita à efemeridade das redes anti-sociais

onde também pululavam poetas em excesso.



Ser poeta acarreta sérios riscos,

não apenas em papel, mas nos automóveis dos poetas,

por vezes riscados por raiva do seu génio incontido,


ser poeta é ser menor,

quando por inveja dos versos excessivos

uma paulada lhe cai sobre a cabeça.



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