domingo, 25 de julho de 2021

Idálio Carneiro entrevistado: mutilado para a escrita

 





Idálio Carneiro, mutilado para a escrita. 

Idálio Carneiro comemora dois anos de vida literária, toda uma vida indelicada à escrita do seu romance «Sim», vencedor do prémio «Escreva».

Tem um estilo muito peculiar, ainda que numa escrita difícil para o povo operário e cantonês. O escritor atinge o absoluto, como aconteceu com o seu primeiro e último romance já em 4ª edição e traduzido em várias línguas.

Quisemos falar com ele. Recebeu-nos em sua casa, rodeado dos livros que a sua prima, intelectual de esquerda - para a qual Idálio Carneiro pediu anonimato - lhe deixara em testamento, feito antes de falecer, naturalmente, devido ao sindroma de Akyroptis. A um canto da sala, sobre uma mesinha pé-de-galinha, algumas fotografias de escritoras mutantes, como ele as apelidava com doçura e condescendência.

Da janela via-se o mar que tanto o tem aspirado.


Semanário Pasquim – Qual a sua mutilação para a escrita?

Idálio Carneiro– Nasci mutilado para a escrita. Em casa dos meus pais não se lia muito. Só com oito anos li o Guerra em Paz, um calhamaço, e depois Sílvio Rebelo Pinto, Pinheiro Chagas Freitas, Bela Bartoque...

P L– Bela Bartoque era músico…

IC – Desculpe, era música, uma bela mulher logo ao primeiro toque. Daí a musicalidade que dizem encontrar a minha escrita.

PL – Fale um pouco da sua infância, da sua vida familiar.

IC- Comecei a minha infância muito cedo, logo aos dois anos. O meu pai era bastante severo, a minha mãe protegia-me e dava-me bolicaos às escondidas. Culturalmente éramos merdianos. Mas comecei a ler antes da escola primária, tal como acontece com quase todas as pessoas entrevistadas que aprenderam a ler por ós moze.

PL - A casa onde nasceu e viveu até há pouco tempo serviu-lhe de cenário para aspectos da sua obra?

IC – A casa onde nasci, sim a casa onde nasci e vivi, ali na Rua da Chuva ao Gato, era um pequeno apartamento onde a minha mãe acendia pauzinhos de incenso. Isso marcou-me bastante, não suporto o mau cheiro, e no meu romance «Sim», o leitor, ou até mesmo a leitora, podem sentir este odor da minha infância.

PL- Na badana do livro são transcritas afirmações elogiosas de críticos, como Pedro Bulia, José Magro Sílvio, Diogo Vais Pisco, António Pacífico...isso fá-lo sentir mais responsável?

- Falo? Eu sou irresponsável por aquilo que escrevo e responsável por aquilo que não escrevo, mesmo quando me acusam de recorrer a um ghost writer, o que é uma mentira de invejosos.

PL - Recentemente foi homenageado no Festival Literário de Ermezinde. Como sentiu essa homenagem?

IC - Senti-a muito bem, tocou-me fundo, o festival decorreu em absoluta imbecilidade, o quarto do hotel era confortável, com vista para a serra de Valongo, a comida era fantástica, feita por um afamado cozinheiro aragonês. A programação era muito bem programada, as mesas tinham quatro ou seis pernas, conforme o caso. Havia trinta e duas mesas de manhã e quarenta e quatro mesas à tarde.

PL- E em alguma mesa foi tratada a sua obra?

IC – Que pergunta! Em todas as mesas, não imagina a correria em que andei para dar nem que fosse uma curta palavra em cada mesa. Creio que falhei apenas uma mesa de mogno.

PL- E como foi a sua relação com os companheiros de escrita?

IC – Não sei bem, porque eles quase todos estavam bêbados, elas lambiam gelados avidamente e abanavam-se com marcadores de livros.

PL- Mas acha que valeu a pena todo o esforço que despendeu, as noites mal dormidas, a aguardente velha, as ganzas desinibidoras, as dores nas nádegas de estar sentado, o calo nos dedos devido a autógrafos?

IG – Acho. Como dizia Pessoa «tudo vale a pena, se.... (não me lembro o quê..)

não é da pequena.

PL – O seu livro «Sim», sim, este livro é um livro de 12 páginas, um romance impressionante pela sua densidade etimológica. Sofreu muito para o escrever?

IC – Sofri. A profundidade deste romance desgastou-me, por isso decidi deixar a escrita. Definitivamente.

PL- Quer dizer que não volta a escrever?

IG – Não volto, não, provavelmente também não voltarei a ler, pois só gosto de me ler a mim próprio Foi um desgaste enorme, apanhei duas gripes e uma hérnia discal.

PL - Mas o livro em si…

IC - em mim ou em qualquer pessoa.

PL –E vai abandonar a escrita, com um livro premiado e traduzido no estrangeiro?

IG- As traduções dos livros são quase todas no estrangeiro e traduzidas em línguas estrangeiras. Quanto ao prémio literário da Associação Portuguesa de Columbofilia, foi uma grande satisfação.

PL - Valeu então a pena investir na escrita?

IC- Se valeu, deu para pagar a vivenda ao banco, troquei de carro, convidei para jantar no

 Gambrinus um crítico literário membro da Associação Portuguesa de Columbofilia, e ainda fiz umas curtas férias em Lanzarote.

PL . Porquê Lanzarote?

IC – Porque sim.

PL – Voltando à sua escrita, o romance «Sim» é muito autobiográfico, não é?

IG – É.

PL – Pode explicar uma pouco mais detalhadamente?

IG – Sempre que me apaixonava por uma surfista, metia-a no livro, sempre que me acontecia qualquer coisa desagradável eu enfiava-a no livro também. Por exemplo, uma vez rebocaram-me o carro. Nem imagina o que eu sofri. Mas logo introduzi este

 acontecimento no «Sim».

PL – Qual a origem do título do livro, tão rebuscado?

IC – Trate-se de uma obra bastante actual, o título vem dos telemóveis «introduza o PIN para o cartão SIM». Ora, uma das personagens, a Kátia Vanessa, está sempre ao telemóvel, por isso é que o marido a encornou com a Xandra Maria, passe o termo, mas eu sou muito vernáculo.

PL- Está-se-me aqui a colocar um problema que não sei como vou sair desta. O Idálio vai deixar definitivamente a escrita, certo? Então qual é o interesse em estar aqui a promovê-lo no Semanário Pasquim?

IC – Nunca se sabe o dia de amanhã, e estou a pensar em ir para a política.

PL – Muitos foram para a política em vão...

IC . Tem toda a razão, vão muitos. Quer tomar um chá, um refresco de salsa parrilha?

PL- Não, obrigado, faz-me mal, deixei-me disso, agora só cerveja e whisky da malta.

IC - Não insisto, você é que sabe.

PL- Assim sendo, não vou mais longe, fico já aqui e agradeço a sua indisponibilidade.



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