Idálio Carneiro, mutilado para a escrita.
Idálio Carneiro comemora dois anos de vida literária, toda uma vida indelicada à escrita do seu romance «Sim», vencedor do prémio «Escreva».
Tem um estilo muito peculiar, ainda que numa escrita difícil para o povo operário e cantonês. O escritor atinge o absoluto, como aconteceu com o seu primeiro e último romance já em 4ª edição e traduzido em várias línguas.
Quisemos falar com ele. Recebeu-nos em sua casa, rodeado dos livros que a sua prima, intelectual de esquerda - para a qual Idálio Carneiro pediu anonimato - lhe deixara em testamento, feito antes de falecer, naturalmente, devido ao sindroma de Akyroptis. A um canto da sala, sobre uma mesinha pé-de-galinha, algumas fotografias de escritoras mutantes, como ele as apelidava com doçura e condescendência.
Da janela via-se o mar que tanto o tem aspirado.
Semanário Pasquim – Qual a sua mutilação para a escrita?
Idálio Carneiro– Nasci mutilado para a escrita. Em casa dos meus pais não se lia muito. Só com oito anos li o Guerra em Paz, um calhamaço, e depois Sílvio Rebelo Pinto, Pinheiro Chagas Freitas, Bela Bartoque...
P L– Bela Bartoque era músico…
IC – Desculpe, era música, uma bela mulher logo ao primeiro toque. Daí a musicalidade que dizem encontrar a minha escrita.
PL – Fale um pouco da sua infância, da sua vida familiar.
IC- Comecei a minha infância muito cedo, logo aos dois anos. O meu pai era bastante severo, a minha mãe protegia-me e dava-me bolicaos às escondidas. Culturalmente éramos merdianos. Mas comecei a ler antes da escola primária, tal como acontece com quase todas as pessoas entrevistadas que aprenderam a ler por ós moze.
PL - A casa onde nasceu e viveu até há pouco tempo serviu-lhe de cenário para aspectos da sua obra?
IC – A casa onde nasci, sim a casa onde nasci e vivi, ali na Rua da Chuva ao Gato, era um pequeno apartamento onde a minha mãe acendia pauzinhos de incenso. Isso marcou-me bastante, não suporto o mau cheiro, e no meu romance «Sim», o leitor, ou até mesmo a leitora, podem sentir este odor da minha infância.
PL- Na badana do livro são transcritas afirmações elogiosas de críticos, como Pedro Bulia, José Magro Sílvio, Diogo Vais Pisco, António Pacífico...isso fá-lo sentir mais responsável?
- Falo? Eu sou irresponsável por aquilo que escrevo e responsável por aquilo que não escrevo, mesmo quando me acusam de recorrer a um ghost writer, o que é uma mentira de invejosos.
PL - Recentemente foi homenageado no Festival Literário de Ermezinde. Como sentiu essa homenagem?
IC - Senti-a muito bem, tocou-me fundo, o festival decorreu em absoluta imbecilidade, o quarto do hotel era confortável, com vista para a serra de Valongo, a comida era fantástica, feita por um afamado cozinheiro aragonês. A programação era muito bem programada, as mesas tinham quatro ou seis pernas, conforme o caso. Havia trinta e duas mesas de manhã e quarenta e quatro mesas à tarde.
PL- E em alguma mesa foi tratada a sua obra?
IC – Que pergunta! Em todas as mesas, não imagina a correria em que andei para dar nem que fosse uma curta palavra em cada mesa. Creio que falhei apenas uma mesa de mogno.
PL- E como foi a sua relação com os companheiros de escrita?
IC – Não sei bem, porque eles quase todos estavam bêbados, elas lambiam gelados avidamente e abanavam-se com marcadores de livros.
PL- Mas acha que valeu a pena todo o esforço que despendeu, as noites mal dormidas, a aguardente velha, as ganzas desinibidoras, as dores nas nádegas de estar sentado, o calo nos dedos devido a autógrafos?
IG – Acho. Como dizia Pessoa «tudo vale a pena, se.... (não me lembro o quê..)
não é da pequena.
PL – O seu livro «Sim», sim, este livro é um livro de 12 páginas, um romance impressionante pela sua densidade etimológica. Sofreu muito para o escrever?
IC – Sofri. A profundidade deste romance desgastou-me, por isso decidi deixar a escrita. Definitivamente.
PL- Quer dizer que não volta a escrever?
IG – Não volto, não, provavelmente também não voltarei a ler, pois só gosto de me ler a mim próprio Foi um desgaste enorme, apanhei duas gripes e uma hérnia discal.
PL - Mas o livro em si…
IC - em mim ou em qualquer pessoa.
PL –E vai abandonar a escrita, com um livro premiado e traduzido no estrangeiro?
IG- As traduções dos livros são quase todas no estrangeiro e traduzidas em línguas estrangeiras. Quanto ao prémio literário da Associação Portuguesa de Columbofilia, foi uma grande satisfação.
PL - Valeu então a pena investir na escrita?
IC- Se valeu, deu para pagar a vivenda ao banco, troquei de carro, convidei para jantar no
Gambrinus um crítico literário membro da Associação Portuguesa de Columbofilia, e ainda fiz umas curtas férias em Lanzarote.
PL . Porquê Lanzarote?
IC – Porque sim.
PL – Voltando à sua escrita, o romance «Sim» é muito autobiográfico, não é?
IG – É.
PL – Pode explicar uma pouco mais detalhadamente?
IG – Sempre que me apaixonava por uma surfista, metia-a no livro, sempre que me acontecia qualquer coisa desagradável eu enfiava-a no livro também. Por exemplo, uma vez rebocaram-me o carro. Nem imagina o que eu sofri. Mas logo introduzi este
acontecimento no «Sim».
PL – Qual a origem do título do livro, tão rebuscado?
IC – Trate-se de uma obra bastante actual, o título vem dos telemóveis «introduza o PIN para o cartão SIM». Ora, uma das personagens, a Kátia Vanessa, está sempre ao telemóvel, por isso é que o marido a encornou com a Xandra Maria, passe o termo, mas eu sou muito vernáculo.
PL- Está-se-me aqui a colocar um problema que não sei como vou sair desta. O Idálio vai deixar definitivamente a escrita, certo? Então qual é o interesse em estar aqui a promovê-lo no Semanário Pasquim?
IC – Nunca se sabe o dia de amanhã, e estou a pensar em ir para a política.
PL – Muitos foram para a política em vão...
IC . Tem toda a razão, vão muitos. Quer tomar um chá, um refresco de salsa parrilha?
PL- Não, obrigado, faz-me mal, deixei-me disso, agora só cerveja e whisky da malta.
IC - Não insisto, você é que sabe.
PL- Assim sendo, não vou mais longe, fico já aqui e agradeço a sua indisponibilidade.

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